quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

toca Raul

Os olhos de Raul pareciam secos aos dos passantes, que evitavam fitá-los por mais que um quarto de segundo, com medo que este se enraivecesse. Já vão para 22 os dias em que ele habita aquele beco entre a rua 13 e a 6. É assim desde que pedira demissão. Não fosse a estatura, a cor dos olhos que ainda lhe restam e o sorriso sempre amarelo, nem mesmo sua mãe seria agora capaz de reconhecê-lo. Seu corpo, que já foi mais pesado - e limpo -, encontrou certa bela androgenia no meio do caminho, antes de se tornar a sombria imagem de ossos que parecem lhe rasgar a pele, apontando em todas as direções. Mesmo a barba mal-feita de outrora perdeu o ar descolado quando a fuligem entumeceu junto à oleosedade no entorno de seu nariz e por toda a testa. Alhures, seria preso por vadiagem, mas nesse beco todos o conhecem; todos parecem se entender durante as crises de abstinência do outro. Todos viciados e impedidos de tocarem à frente tudo o que lhes tinha algum significado. Tomaram de Raul o que mais havia ele cuidado para que funcionasse como o quartzo mais perfeitamente lapidado, submetido ao mais fino amplificador e montado junto as mais delicadas engrenagens. Nada disso bastou para os que, sem balizar o desmonte de tantos anos de carreira, debulharam os sonhos destes que agora tremem no delírio de bizarro vazio.

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