sábado, 20 de agosto de 2011

do que sou

Acordei querendo escrever isso. Acordei precisando escrever isso. Acordei tendo que agradecer por isso. Acordei sabendo que serei eternamente grato por isso. Acordei, acho que, sorrindo por isso.

Dizer que somos o que somos é uma verdade tão insuficiente quanto um copo meio vazio; uma cerveja meio gelada; uma noite mal dormida; um amor mal feito; uma moça simpática. Somos o que fomos, o que podemos ser e o que fazem da gente, muito mais do que pensamos ter certeza. Um Bastião qualquer acorda mudo, aporrinhado de seus meses de inércia, certo que o dia entrará mudo e, pra variar, seguirá o ditado. Vê cada individuozinho como um descanso besta ao fatigante encardido do teto de seu quarto. Concede-se mesmo um usufruto de alguma festinha repetitiva e encontra os temas batidos nos mesmo bancos ensebados. Prosa, coça e retorce. Espíritos novos trazidos por espíritos enjoados e talvez só isso mesmo. Há, claro, aquele sempre presente coraçãozinho florido que aparece, borboleteia em devaneios, mas a autoestima trata sempre de arrancar as asas amarelas que podiam enfeitar o alvorecer. Um Bastião qualquer sempre perde a melhor bênção. Depois das formalidades e costumeiras cordialidades, deita o amarrotado cabelo no travesseiro cansado e inicia a diária sessão de torturas: “oh o que fiz! oh o que não fiz! oh o que poderia ter feito! oh que graça de amarelinha que será pra sempre só uma memória do que não foi!” Um Bastião qualquer pode, no entanto, acordar meio amarelado. Assusta-se, claro, pois até onde se lembra, era cinza. “Catzo!” E de amarelado então dourado e começa -”porra, mas como?”- a brilhar.

As variáveis são múltiplas, algumas mais exibidas que as outras, claro. Mas o que de fato é, não há um Bastião se quer que possa atrever-se a fincar bandeira na lua e jurar de pés juntos que sabe.

Mentir é feio, então um Bastião qualquer vai ruborizar, rir baixinho pra nem o gato perceber e agradecer, de joelhos, a quem nem sabia do bem que podia lhe fazer, por lhe dar cor: amarela, verde, preta, listrada ou o que for, mesmo sem ser.

Um Bastião qualquer pode, do dia pra noite, sorrir prum teto encardido, pois ele não mais o será.

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