sábado, 17 de março de 2012

sobre longe e novamente


A voz calada da festa
-daquela ainda que respiramos
as últimas despedidas-
é nossa.

Cala-se o corpo por necessidade
abstêmia do tempo.
Calamo-nos aos outros,
ardendo em sonhos ainda sentidos.
Calaram-se os céticos
e maldosos.

Tira-teima queima o tempo.
Voltamos ao instante como fosse
ainda o mesmo -e de fato sim.
Vivi-te como se a saudade de
ir a esquina não fosse menor.

Perdoamos qualquer dúvida,
pois aceite sobre
azeite 1% é cama
de sacies dos sentidos.
Nunca não nos fomos
-é essa a doce ilustração
de meu espírito.

Estar você -em aqui
e lá; aqui e
lá; aqui e lá- é sorrir.

Tantas vezes venha o mar e o céu,
tantas vezes marearei a vista
em fausta saudade
e rever.

***

Pouco mais que
quase nada e
estou seu também em corpo:
de alma já me fui, em pré-natal
de ano que morreu.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

das obviedades


O copo é mantido cheio, por
falsa doce distorção
das batalhas consanguíneas que
frutificam em semanas
tão cheias
de lonjura,
que Deus não
perdoa.
Apodrece a garganta e suspende
o ar da vida: mãe e filho
que se perderam de
tanto
encontrarem-se. Quem diabos
pode com almas tão secas e
azedas? Contagem regressiva que
apodera-se do ar e é mantida
suspensa,
em suspense,
como que guardando o amanhã.
Nada difere: seremos os mesmos,
apenas menos capazes de aceitar.
Marchamos pari passu à culpa, por
imaturo espírito em corrida
de eloquência, mas
mal cruzamos
alguma linha
imaginária qualquer, dessalgamos
a saliva de ontem.
Doces, carteado e lascas de
política: somos
ou não
somos
o riso sádico de algum pantaneiro
aleijão?
Feitos a
dor e semelhança
do outro
um.

sábado, 28 de janeiro de 2012

sobre antecipar o carnaval


Não espere por meu
beijo, garota: não vai precisar.
Lhe já foi dado antes mesmo
de pensar em ser seu.
Sonhos que se constituem futuro,
amanhecem no passado; eu sorri
ontem com o hoje do mês anterior, pois
dele é
feito o meu desejo por amanhã; mais
intenso aqui, mais
refinado ali.

Estamos além pois suportamos não ser:
alquebranto do viver, tecemos
o sorriso de hoje
com olhos em gozo futuro, pois
viver a imaginação
tem sim seu cabimento.

Vivo
cada segundo
de cada
desejo fecundo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

sobre querer gritar aos quatro ventos


Certa noite que não
tem fim, findo em
mim.
Parágrafo.
Sinto sua falta.

Amo você.

sobre somar


Não encontrei o pecado.
O Mal possível é nada além
afã pessimismo.
Madrugada avante e apenas
rastros nus,
de braços tão meus que
seus.
O desastre passa ao largo: sorriso
morto.
Poderia estar mais claro, mais
azul, mais sutil,
o beijo? Duvido.
Ela guarda suas curvas.
Guardo minha meia
dúzia
de olhares distraídos.
Guardamo-nos assim:
pouco de um em cada outro
de si.
Vivemo-nos por
aceitar o dulçor
de ser o outro. Do outro.
Ser a liberdade, ela mesma,
não pode ser um erro.
Seria, assim e tão somente fosse,
o pecado.

Sou teu, pois sou
meu, e assim
completo, querendo completar-me,
além mar.

domingo, 15 de janeiro de 2012

das ereções perdidas


Pensava em suas coxas com a cabeça apoiada no vidro. Não podia ser diferente numa viagem daquelas, exaustiva como manda o figurino: houve constrangimento. O camarada a meu lado finge que não vê. Cruzo as pernas num sufoco fictício pela privacidade. Não bastasse o jeans que me estrangula o sangue, também o faz o ambiente: somos castos por sociedade. Milhas e oceanos são nada: a infelizmência mora aqui. Nas sombras de minha exasperação, ao menos, reside o humano. Se sou reflexo? Ora, claro que sim: todos são: quantos são os que experienciam o além ereção? Poucos, se nenhum. Fizeram-nos, sabe-se lá quem, sombra às potências. Estamos contentes com uma broxada como estamos contentes com um emprego de merda. Choramos tão pouco uma foda não concretizada quanto um gordo que não pode contar os dedos de seu próprio pé e vê em sua mãe a própria fotografia, tirada num universo paralelo. Tanto faz. Caminhamos à ilusão de dias melhores, mas estão nos dias melhores aqueles que vivem de remédios para manterem-se firmes e dispostos a saciar tudo que não seja tesão; nem o próprio, nem o do outro. Não dará um pico para evitar o vício. Jamais será amarga sua garganta, pois teme depressão. Fungos são perigosos. Mas fluxetina e ritalina são dádivas farmacêuticas. Está morto, pois tem medo! Tem medo de gozar, de gostar, de gamar. Errar com Deus é errar consigo mesmo, pois do divino são feitas nossas tripas. Nem podia ser diferente: somos Sua imagem e semelhança. A calça bem abaixo do umbigo, a saia justa, a boca entreaberta: nada profetiza tão bem o desejo como a verdade inexistente. Inexistimos. Se não broxasse, existiria. Sou humano: não existo. Do mais da espécie, tenho a condição: não me deixar ser, nem um, nem outro: apenas não. Somos criados para não ser: temos o pau mole, a calcinha seca, a luxúria falida, a revolta revogada, a raiva contida, o pavor exarcebado. Somos tão nada que nem sabemos.

domingo, 1 de janeiro de 2012

das pitadas de credulidade


Fico na retaguarda se curioso sobre
o poder das fotos em
guardarem músicas,
dos textos
em serem sensações
e do tempo em ser memória.

Abro os olhos e me vejo
estranhamente crédulo por
luzes e estampidos.
Mesmo aos duros de fé, é
como se
as cores pudessem mesmo realizar desejos.
Culpamo-nos por isso,
pois somos o pecado em
seu avesso, só que
é essa a mesma liberdade
-livre arbítrio, talvez diriam-
que trai nossa razão.
Cada estouro, cada rolha
que desaparece, cada sorriso de morte,
cada puta que reflete sobre si,
cada tiro dado ao alto:
tudo nos remete à esperança,
num arremedo triste e sorridente
de superstição.
Desejamos intensamente e,
tão logo os minutos passam,
fingimos nossa própria mentira.
Céticos do próprio
ceticismo.
Energias de além mar que
me fazem enrubescer
de vontades,
de lembranças,
de tesão.

sábado, 31 de dezembro de 2011

meu muito obrigado à bonita, por ser tão Olivia

da madrugada ii


Na madrugada, todos os sons são
singulares; há o particular e nada
se mistura:
o motorista que perde o controle,
o cachorro, o homem que bate
em sua mulher,
o lixeiro, as navalhas, as putas,
garrafas partidas, corações
partidos, guardas de rua,
os secos estampidos, os loucos,
os fogos de fim de ano:
tudo isso me enjoa,
de tão humano.
Todas as aflições, todos os
cigarros acesos, todos os estupros:
tudo é acessível pela mente, mas
ninguém está lá.
A saudade não encontra apoio,
torna-se angústia.
Vemo-nos vivos demais, pois
nos cobrimos
de morte.
Não importa mais seu sono:
encarar a si mesmo mata,
ao poucos,
cada noite, cada dia, mais.
Somos assim humanos e, só
por isso, celebramos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

de objetivos e dispositivos

As portas, há tanto escancaradas,
esperaram por quem às passasse.
De dia que vira noite e
beijos são roubados,
vocifera como arguto o coração,
mas é no inesperado que
a verdade ganha
seus momentos de gratidão.
Feliz daquele que tem
quem o
transpasse, pois assim terá
o espírito levado além(mar).
Das marcas de unha nos muros
aos altos sussurros e roucos
calafrios, resta o arrepio,
todo novo,
que revive história recente em
curtas safadezas da memória:
cria-se assim o próprio barco
que balança rumo a si mesmo,
pois é este o nome que Deus
lhe deu. Cada tábua,
cada prego, cada rum e
cada um: todos refeitos no descobrimento alheio.
Há esta imagem, com seus requintes
de perfeição -pois de cada ponto se basta;
há meu desejo, que todo são pontos.

nó de domingo


Eu realmente não estava muito paciente quando aquela estranha, de vestido azul, puxou papo. Tentei me convencer de que minha indisposição era cansaço, mesmo sabendo das sorridentes noites seguidas, sem sono, que eu passara ao lado de F. Voltava para casa e meus olhos não estavam abertos a outra garota: tinha a minha e isso mais que me bastava.

Tentei ser o menos rude possível, mas acredito que minha cara de tédio não tenha colaborado, pois foi fácil desviar o assunto -sei lá se ela falava sobre como sua festa de debutante havia sido fantástica, ou se era a de sua irmã, não entendi. O burburinho começou próximo às primeiras poltronas do ônibus e, em segundos, todos tinham no rosto a expressão de horror por um acidente ao qual nos aproximávamos. O fato é que eu estava tão aborrecido com aquela guria que nem notei o ônibus desacelerar.

Nunca fui curioso pela desgraça alheia e quase rezei para que não parássemos ao lado daqueles dois carros batidos. A essa altura os comentários dos outros passageiros já me agoniavam o bastante e eu estava temeroso sobre meu bem-estar. Provavelmente por minha falta de fé, paramos exatamente ao lado do que se anunciava uma tragédia. Eu havia escolhido aquela janela por gostar de ver o mar antes de chegar em casa. Baixei a cabeça para não ver, mas os comentários maldosos do motorista  -algo sobre bêbados e turistas- me aguçaram a curiosidade de forma cruel: houve então que descobri, em três exemplos de uma só vez, em quantas lascas um ser humano pode se desfazer.

Se não me falha a leitura de algum texto, foi Heidegger quem descreveu a angústia como o mais humano dos sentimentos, por ser nele que nos encontramos com o mais complexo do irracional, o mais direto de nossas vísceras. Difere do medo pois não tem um por quê: apenas se cria e existe em nós sem ter pai.

Lembrei de F. e de como, em certos momentos de sobressaltos do inconsciente, temia perdê-la. A sensação era a mesma, como se uma traição pudesse doer como a morte. A dilaceração daquelas pessoas, ali na minha frente, aos pés de uma mulher sem reação, fizeram-me reviver as trevas da solidão. Não significava nada àquelas pessoas, nem elas a mim. Fechei os olhos e experiencie o abandono apenas nos comentários daqueles egoístas.

Criamos a paz na companhia do outro. Nos fazemos existir justamente no altero. E tudo que eu tinha era uma idiota de vestido azul, enquanto sonhava com braços de dor real como a morte, mas que sabia meus.

domingo, 25 de dezembro de 2011

do olhar dum além-mar


E então você resolve plainar sobre os próprios consumos: dias e dias idos ao fim de caber nada além do aprendizado. Sabe, de óbvia lógica, que há valor nesse descabimento, mas apenas como ponte. Teme, por ser refeito de humanidade, que haverá tipo similar de repetição, mas daí que olha o próprio copo e diz-se: cresci!

Quando resolvi que aceitava essa nova resolução do espírito, fui sombreado por latas enferrujadas, sorvetes de pistache, anéis de latas e outros badulaques mais, que sobrevoavam o tal do eu que estava ali. E foi assim que ganhei um coração: honestei em cada vírgula, inclusive nessa.

Nada há que seja imóvel, mas tirânico quem descrê o titânico do querer.

sobre esclarecer-se


Tomei decisões sobre (nunca
para) você.
Tenho como aceite que dei
pra existir a teus olhos: primeiro passo
ao brilho próprio.
Eis também que fiz o ventre
livre à liberdade de dois
em um: descobri como sorrir
teu sorriso.
Ainda além mais do além
mar: estou enfeitado de engrenagens
licorosas da esperança: estou de ombros
dados com amanhã
ou depois -e isso só pelos lábios
mordidos de hoje.
Não obstante: matou enfeites de
pedra que esculpiram-se pelo mofo.

Festejei!

Estou conforme com informes
de meus desejos: isso basta: vamos além
de nós mesmos!

Votos meus
de natalino sabá.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

sobre saber sorrindo de olhos fechados


Um salto e já não
estou aqui. É como se, num
susto, nunca estivera.
Rompe o peito o fulgor da ansiedade,
mas é
a carne
quem chama: coma-me!
Suspiro além mar por já
vivê-lo no artifício pós-
moderno. E vivo.
E é disso, que de vontade refeito,
ecoo bandeira do acordo: sou teu.

Acordo e sou mais, com temor
cocainômano, de manhã anômala,
gritando o corpo por
teu suor.
Já sou a saudade imagética
de um Platão incoerente:
és vingança ao tesconjuro de
sonhos malacabados.

Não temo
-que lhe sobre clareza e sorrir-
tê-la; sê-lo;
viver-te.

domingo, 18 de dezembro de 2011

sobre não saber -nem poder- agradecer

Este é um texto de exceção. Este não é um texto poético sobre o agradecimento. Este não é um texto sobre o agradecimento: este texto é, ele mesmo, o agradecimento.

Esse texto é muito longo pra ser escrito.
A poesia não pode acompanhar esse texto. A poesia não pode ser inserida nesse texto. Para este texto, a poesia é pequena.

Na poesia sente-se o texto. Neste texto, só eu sinto a poesia.

Este é um texto egoísta sobre ser pequeno ante o agradecer.

Este texto é o nada ele próprio, por ser o único altero possível ao que sinto. Esse texto, vale dizer:

nem existe.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

sobre sorrir o sorriso alheio

Há o hiato! E que
importa? Mesmo no pelo e
entre ventres, habita o espaço.
Hoje sou oceano, grande na
saudade, sorrindo aflito as
asas de coragem de
quem veio desmistificar
meu ceticismo.
Ora, tolice enganar-se: há falha;
há acerto; há medo.
Cabe ao espírito não antecipar o próprio
sufoco: não é por fato
que chora ao antecipar o
nó na garganta.
Só posso sorrir por o que me é e,
avesso ao nada, assim tanto.
O sol que vejo debaixo
das nuvens sugere amanhã.
Seguro-me confortavelmente a isso.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

sobre ir e vir

Teme a si em função -seria
possível razão?- do
outro.
Escolheu cama nos braços sedosos
de quem já não estará,
entre luas de não saber
nunca, perto
o bastante
de seus pontos.
Efeito encaixante, transvestido
de ausência, tendo o desejo como
altero.
Fome de cheiros que
habitam as sensações de
breve dormir, basta-se
para, febril, retomar
arrepios.
No entanto, por
habitar tão puros os
pudores, tende a fantasiar, entre dentes contentes,
rotinas não circulares de mútua
aceitação.

"Gosto da gente!"

O teto estrelado cintila.
O horizonte, que esconde a si mesmo,
sorri teu sorriso e enternece temores.
Estou você, seguro de mim,
contente por ambos
em um.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

sobre o pequeno ato de genialidade estético-biológica

É sério.
E
bem mais
que isso.

O LIVRO DE BERNARDO

.23

Sou livre
para o silêncio das formas
e das cores

___
Manoel de Barros - Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

da importância do corpo / do espírito


I.

Ecos de pontos em repetição
geométrica no outro fazem
de meu corpo
adoração ao teu, templo de missas
tão pagãs
quanto meus sonhos mais sorridentes.

Pássaros de invernada poluem,
em desacordo com o ritmo
do espírito,
a linearidade descompassada
do contrarregra, mas
são alvo fácil aos
dentes salgados por
padrões límbicos. Nada no mudo
quando charco dos desejos.

Não me faço de vontades
por estar fruto de amor,
mas existo os poros da bonita
no coro biunívoco.

II.

Rende-se o medo a teu desenho
em meus sonhos. Não por
ser redundante em covardia: por ser
mesmo pequeno
ante o que me deu; por não ser
nada ante o aparelhamento azul
de meu sono.

Cobra criada em fulgor de
horizonte, anseia pela oportunidade
de outra dose de
sublime, sejam com baguetes, sejam com
canecos, sejam só
saudades. Mas que daí nascem
borboletas, com suas asas
de melão, roçando
estômagos e
angústias, lavando raízes
e armando totens.
A adoração é inevitável pois
carrega requintes de
natureza, sobre quem me é
e como se me
aparece, em prosas, espelhos e
manhãs.

Não me faço de amor
por estar fruto de vontades,
mas existo os poros da bonita
no coro biunívoco.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

sobre o que me é


A pequena garota perdida que
vejo em teus
sóbrios olhos de ritalina e
lábios de primavera ensolarada, é
o desjuízo que me perdi
ao encontrar teus pés sob cobertas carnes
de madrugada fria.
Sob qualquer querer bidirecional
que aponte esse despropósito,
ambos tem como tento central
teu centro espírita, que tanto
comove meu
ceticismo caiçara de cara
de pau.
Faças me todo teu pois assim
bem o quero que queiras.
Brindarei com asas de anjos e
cruzados de esquerda cada beijo
largado a meu juízo -desses que
não fazem sorrir qual os dentes duma zebra,
mas que escancaram perplexidade
da vista quando desta o alcance
da outra pupila.

Ando todo acertos por desavexo do desejo,
mas certo da curva de rio
que as semanas me guardam, tento
ler em teus poros o destino
de meus dedos.

Este é um ode as novas sensações,
às camas de domingo,
às panelas de barro,
às panquecas no forno,
aos sorvetes de creme,
aos safanões,
a teu sublime existir,
bonita.
Este é um pequenino ode sonhado sorrindo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sobre o tão pouco cheio de muito

Alívio de carne que enseja gracejo em becos e tacos de medos e gatos.
Sou pelo desejo e destempero de taquicardia do sorrir.
Faço hora pra sono de cheiro. Teu peso no meu. Te amarro na gola de aroma vermelho.
Puro prazer anelar em divertir o desespero de não ser com data marcada.
Quero toda, com requintes de literatura.
Do resto, que se desfaça, pois vivo enfim.
Não por menos, brilha-me mais que corisco madrugado.
Temo termos, mas sigo cego de arrepender-me.

sábado, 15 de outubro de 2011

dos galgos mudos ou algo assim


 Os galgos todos foram banhados e perfumados para a noite de gala. Somente após a sessão de degola, apesar, é que teriam vez na mesa de jantar. Tantos preparativos e mimos aos pelos, que os guardas esqueceram o café no fogo que, por pouco, não assa, vira pó e insiste em sublimar. Os pescoços, esses menos mal, tiniram na navalha mais depressa que ânsia de moleque ante Marilyn.
 - Ora, ora, ora! Mas veja o que temos aqui!
 Bradou sob as toscas barbas o filho de Epíruco.
 - Nada além de engano e urbanismo. É ou não o ego, cuspido e escarrado, de nossos beats mais apodrecidos? Há! Há! Há! Tão rápido que o choro não encanta nem valsa de debutante.
 De fato, o apelo criado nas cercanias daquele ritual não agradava a todos. Menos ainda a ninguém. É que o sonho de horizonte dos sujeitos não existe sem ser limite: céu e mar, noite e cidade. Vai ao infinito com tangências de grilhão. Ao menos (menos?) sabe que de vidro não o teto, mas talvez -talvezinho, de leve, depois do almoço, enquanto sonha sozinho na sombra da mexeriqueira- a sanidade. Ele -e aqui o pretenso existente leitor há de desculpar o pulo de apresentação dessa suposta personagem- nem sabe de seu cheiro, de seu peso, de seus vícios, de suas degolas. Vive o alfa de uma fêmea em polvorosa.
 - Oh! Bastião, estás bem?
 Graceja honesta questão, a Razão.
 - Tanto quanto vós, carne violada. Vivo meu momento e ele é eterno em seu Saturno.
 Responde sorrindo, dentro e fora, o delicado.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

este texto não tem título, mas se basta

Houve uma tarde de olhos infinitos
quando os lembretes de memória já datavam de quase um dia todo
que eu pensava em você sem parar.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

sobre ser atrapalhado

Ocupar-me de você sem tê-la estando a teu lado é perturbador. Ou no mínimo me ruboriza.

domingo, 25 de setembro de 2011

sobre o que dos outros não há em si


Ecoou desavisado no espírito
bastiano, com gravidade sênior e doce
hálito dominical, o aviso primaveril:
“Trouxa!”
Sem esperar, encontrou
objeto de decepção em sua espécie.

O infortúnio da despreocupação vem com a rasteira da confiança. Tomo-me como infeliz exemplo de mão-no-fogo sem ser, por ações alheias e, como num susto de olhos baixos, traído pela própria tolice. Por bem dizer, do outro nunca é esperada destreza da incoerência, mas há sempre menos de si no altero do que ensejam os suspiros de nossa altiva calma.

Graças, ao menos, por ter fato
novo aos novos
cuidados.
O sorriso agradece honesto e
deliciosamente viciado o valoroso
agregado à canção de Nina.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

sobre o muito que li e há muito não via


Navegados, os mares da falta são de um viscoso agudo.
Gruda na pele o torpe infinito de cada gota, castigando o juízo, o ego, a imaginação.
A sanidade vai mareando, embargando.
A vista cansa, mas não desenxerga.
O osso coça.
Há algo na dependência que é de sujeição, pra além da impotência.
Homens e mulheres entregues a quem não lhes têm.
Mártires dos que respiram o azul do sol.
Não fecunda vida boa um amor forçado pelo desaviso do bom senso.
Não respira boa forma um dois em um, que não é nem um nem outro.
Não existe bem o sujeito que não tem si mesmo em si.

***

Dei pra existir como sendo você em mim.
Acabou que gostei de fazer inversão à vida e, agora, se deu que sou todo novo, feito do velho e atento por vir a ser.

***

Todas as portas intumescidas pela dor foram abertas.
Os cômodos, agora arejados pelo desconhecido, não mais incomodam.
A cal fresca de cheiro frio e tóxico é o próprio paraíso.

“Brilhem nos céus os anjos da coragem,
os centroavantes do orgulho,
os beatniks do futuro!”

Foi tremendo que o corpo reagiu convicto.
Foi sem culpa que o espírito se enterneceu –e tão logo virou as costas, soube do acerto.
Entupiram-se os poros de possibilidades e, no repente dos desejos, a primavera já se adiantou.

***

Não podemos perder aquilo que não temos por opção.

domingo, 18 de setembro de 2011

da vida que, graças, é uma só

Houve de relance que existi a te negar.
De viver vida vivida alcancei inovação.
Fiz de pedra da memória lamaçal.
De você sobrou o brilho, que não toco tanto quanto




rejeito.

Somos nada mais que fomos.